A história de amor

Em Janeiro de 1920, o poeta Fernando Pessoa conheceu a jovem Ophélia Queiroz (ou “Ofélia Queirós”, indistintamente) nos escritórios da Baixa lisboeta onde ela entrou para trabalhar como dactilógrafa e ele já exercia os seus serviços como tradutor de correspondência comercial.

Pouco tempo depois, iniciaram uma relação amorosa que iria durar até Novembro daquele mesmo ano, e que depois de nove anos de silêncio foi retomada no Verão de 1929, para terminar nova e definitivamente, ao fim de uns meses, embora o contacto se mantivesse até a morte do poeta em 1935.

Esta relação é conhecida pelas cartas que ele escreveu a ela, 48 cartas publicadas em 1978 e precedidas de um texto explicativo da própria Ophélia (testemunho sóbrio e modesto mas muito precioso, dado que é tudo aquilo que tornou público) e das cartas dela para ele, publicadas pela sua sobrinha em 1996 e ainda inéditas em castelhano, e que só foram publicadas anos depois tanto da morte da própria Ophélia (1991) como do marido desta pois, ao contrário de Fernando, ela chegou a casar-se, mas só anos depois da morte do poeta.

Além desta correspondência, apenas existem testemunhos isolados, demasiado vagos e escassos que recriem ou relembrem este amor.

Nem mesmo dos familiares ou amigos mais próximos, porque foi uma relação levada com a máxima discrição e nunca se oficializou. Além disso, quando o interesse por o poeta se exaltou no que diz respeito à sua vida privada, já haviam passado muitos anos e as recordações tinham sido apagadas ou quem as tinha, simplesmente, tinha morrido.

De qualquer maneira, foi o único amor conhecido do poeta, o único nos seus 47 anos de vida; e a publicação em 1996 das cartas de Ofélia para Fernando (um total de 110 cartas, mas certamente foram, no mínimo, mais de uma dúzia, entre extraviadas, ilegíveis e as que a família censurou) lança luz em tantos lados de sombra e destrói o ponto de vista unidireccional (cartas dele para ela) que até então os seus biógrafos contemplavam, principalmente no que respeita à chamada “segunda fase”, o período compreendido entre 1929 até quase à morte do poeta.

Porém, desde aquela data de 1996, em que se dá a conhecer esse outro ponto de vista, poucos foram os que abordaram ou retomaram esta relação, e menos ainda os que têm valorizado devidamente a figura de Ofélia Queiroz.

Desde a sua morte até aos nossos dias, o Destino que tão negado foi para si em vida, transformou Pessoa numa das vozes mais poderosas na literatura universal do século XX e no escritor português de todos os tempos com maior reconhecimento depois de Luís de Camões.

Desde 1985, os seus restos mortais descansam na Abóbada do Mosteiro de Jerónimos, próximo dos grandes da pátria portuguesa, como Vasco da Gama ou o próprio Camões. Ofélia, que levou uma vida discreta e anónima coerente com a sua condição burguesa, nunca usou o seu laço com Pessoa em benefício próprio, nem revelou qualquer pormenor da sua intimidade nem da sua vida privada, por respeito ao seu marido e para consigo mesma, por muito que o seu Fernandinho acabasse transformado no grande Pessoa, figura, quase caricatura de si mesmo, explorada até a saciedade.

E a verdade é que hoje não sei onde os seus restos mortais. É tão pouco o que se sabe sobre ela!… Porém, um amor como este foi tão simples e tão complicado como qualquer relação entre um homem e uma mulher, com as mesmas grandezas e misérias, igualmente sublime e ridículo; um amor comum, atemporal e universal, que dava outra volta à chave no mecanismo complexo da personalidade do poeta, quebra-cabeças de peças que não encaixam e que, como num desses desenhos de M.C. Escher, não se sabe onde a pessoa começa e a personagem termina, como a mão que se desenha a si mesma e vice-versa ou as pegadas que se apagam na praia de todas as recordações quando a maré dos anos sobe, num desses mares que ao contemplá-lo, como diria o mesmo Pessoa num dos seus poemas imortais, “dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca”.

A partir da correspondência entre ambos, do testemunho deixado pela própria Ophélia Queiroz, das recordações e impressões de familiares, amigos, conhecidos e biógrafos, assim como da obra do próprio Fernando Pessoa, muito especialmente partindo da consideração de diário íntimo do Livro do Desassossego, é que este romance reconstrói isso, um amor como este.

E fá-lo partindo do mais profundo dos respeitos e com a preocupação máxima de concebê-lo o mais fielmente possível a que, como é de supor, sucederam os factos, permitindo que o leitor formule a sua própria opinião. Digamos que ponho Fernando e Ophélia a passear por esta Lisboa aqui revisitada (marco incomparável sem o qual esta história não é concebida) e deixo-os serem levados pela corrente, como mais dois peões, daquele rio humano que era qualquer uma das artérias principais da Baixa ou do Chiado em 1920 ou 1929 no momento do fecho dos escritórios e comércios.

Ponho-os a dar um passeio e sigo-os, a uma distância prudencial, mas sentando-me ao lado nos cafés e eléctricos para prestar atenção e não perder o fio da conversa… ou melhor, para apanhar no voo o fio da última conversa, que invariavelmente teria de continuar na carta seguinte, escrita febrilmente naquela mesma noite. Ao narrar este amor em “Um amor como este”, tentei apanhar as migalhas que o poeta deixou então à entrada do labirinto (Assim organizar a nossa vida que ela seja para os outros um mistério, que quem melhor nos conheça, apenas nos desconheça de mais perto que os outros...) e deixo-me levar até naufragar para conseguir entender a grandeza e a miséria deste amor concreto, e assim deixar claro, ao jeito de um livro de bordo, algumas coordenadas que nos orientem, a nível pessoal, em naufrágios futuros, ou ao menos nos ajudem a superá-los na íntegra.

Deixo-me apanhar na sua teia de aranha para acabar por fazer a mim mesmo a pergunta inevitável que faz qualquer um que se aproxime seriamente do estudo da figura do poeta (como aquele que faz Antonio Tabucchi no seu “Um baú cheio de pessoas“: … Chegados a este ponto, talvez os poucos amigos que pensavam conhecê-lo, que conheciam não só os aspectos públicos do intelectual mas também o aspecto privado do homem,aquele “tom menor de uma condição de empregado patologicamente respeitosa com o ritual”, os amigos ao corrente do deambular daquele empregado de escritório tão previsível (o chapéu, o fato escuro, o quarto alugado, a paragem no café – sempre o mesmo – para as quatro conversas), provavelmente terão experimentado uma certa desorientação: Pessoa: quem era este homem?): …Fernando Pessoa, quem era este homem?…

…Sem querer ou saber assumir que talvez a resposta já nos tinha dado o próprio, e muito claramente, no seu indispensável, inesquecível Livro do Desassossego: “Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer.

Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.” Pois bem. Acendo a vela, mas não há mais cera do que a que arde. Que isto sirva de aviso à navegação: nada de golpes de efeito e jogos de adivinhas. Truques literários, o justo.

Ofereço um amor como este e Pessoa em estado puro, para terminar com a abertura desta outra questão, não menos profunda, não menos fascinante: …Ophélia Queiroz, quem era esta mulher?… E neste caso dá-nos a resposta, na primeira pessoa, nas suas cartas. E se este livro tem algo de homenagem é por isso que se atribui o primeiro lugar a Ofélia, Ofélinha… Bebé, bebezinho, Nininha pequena, meu querido amor… Porque acredito que já está na hora de ouvi-la e reconhecê-la.

…“Não o considero um homem normal e como tal não espero de si banalidades ou trivialidades. Se por vezes reclamo, é pelo muito que o quero e não sei dizer-lhe que fiquei contente por não ter falado consigo, ou não ter recebido notícias suas. Não sei gostar deste modo. Não é de estranhar que, gostando muito de mim, sofra muito por não nos termos visto. Mas a sua carta de hoje fez-me bem, agora esperarei com mais resignação. Porque esperarei por Fernandinho o tempo que for necessário.”… Desejo de todo o coração que um amor como este os consiga emocionar. E antecipo as minhas desculpas pela falta de jeito evidenciada nesta tentativa. Afectuosamente, LUIS MORALES. (Do “Prólogo” do romance “Um amor como este“)