Bairro Alto

NOITADA NO BAIRRO ALTO

…Às onze e vinte e cinco reagi.

—Porra, combinámos às doze no Bairro Alto!

E como estava perto, dando um agradável passeio pelo trajecto do eléctrico 28, vesti-me (uns jeans gastos, camisola preta, camisa lisa azul tecido oxford, uma jaqueta leve, calçado confortável e todo-o-terreno) e saí da Residencial, sem fazer barulho e sem necessidade de dar explicações.

Cheguei ao Portas Largas às doze e cinco. Era sábado, início de Outubro, um sábado de uma noite de Outono agradável, mas já fria; com o curso universitário acabado de começar e a cidade ociosa, como uma sereia à beira-mar, sobre as suas sete colinas, sobre as suas setenta vezes sete subidas e descidas e idas e vindas. Havia, portanto, pessoas. Sabe-se também que o Portas Largas é um imperativo para as noites do Bairro Alto, para ficar ou tomar a primeira bebida, como um curinga de bar em bar e, de algum tempo a esta parte, ponto de encontro também para o público gay. Mas, felizmente, estes não o colonizaram nem monopolizaram, de modo que continua a ser um bom ponto de encontro para todos os públicos.

Subi e desci, dobrei esquinas, espreitei; olhava nos olhos das pessoas e torcia-me entre a multidão, levantava a cabeça para avistar, entrei duas vezes no local. Mas, nada. Não encontrei ninguém conhecido, nem ninguém me reconheceu. Nada. Anonimato total. “O convite não chegou a tempo”, pensei, “ou os meus leitores não me são tão fiéis como pensava, ou não o suficiente para pegarem no carro e virem a apitar para Lisboa”… Pelo menos espero que o Oliverio apareça.

Então, entrei, esperei pacientemente até conseguir chegar ao balcão e ser atendido, pedi uma cerveja e levei-a para a rua.

Encostei-me à porta de uma casa, vendo as pessoas a passarem e bebendo goles curtos, mas com a pose de quem está à espera de alguém. Olhei para o relógio: doze e vinte e cinco. Nunca gostei muito de sair sozinho. Fala-se…

—Homem, estás aqui!

—Porra, Oliverio. Vieste…

Qué alegria, vê-lo chegar, que me encontrou no meio da multidão e das pessoas que vêm e vão, que está aqui para passar esta noite, que me tire um pouco da minha solidão e, que confirme que, de facto, estava ali encostado à espera de alguém que não era Godot.

—Claro, homem. E desculpa não ter chegado a horas, mas estava com o Arturo e o Ricardo. Qué dois. Deixei-os num bar, na Almirante Reis, a beber com quatro velhos do bairro. Queriam sair pela Mouraria, pela rua da Palma. Qué perigo. Vim-me embora. Disse-lhes que ficaríamos por aqui. Olha, vou pedir alguma coisa.

—Ok, vamos — vejo o meu copo meio vazio —, peço outra bebida.

Entramos e vamos abrindo caminho até ao balcão. O ambiente, um pouco carregado, tem no entanto um ponto festivo bastante simpático, para que contribui notavelmente a música brasileira. Antes, ou sozinho, estive até um pouco envergonhado, como se tivesse uma relação inversamente proporcional entre diversão e sociabilidade; mas acompanhado, ou na companhia do Oliverio, sentia-me mais seguro e, portanto, mais desinibido.

—Que tal está por aqui? — perguntou-me, já encostados ao balcão.

—Por aqui? Por Lisboa?…

—Sim, por Lisboa.

—Pois bem, ontem fez uma semana que vim. Bom, há uma semana que estamos aqui.

E comecei contar. E pedimos umas cervejas, saímos, chegámos a pedir mais uma, voltámos instalar-nos fora e continuámos trocar impressões quando decidimos ir para outro sítio. 

É como a Cava Baja ou a Corredera Alta de San Pablo em Madrid a uma sexta-feira, ou a rua Huertas, ou os bares tacanhos da zona antiga de Cuenca, Oviedo, Gerona ou Badajoz. Ou uma mistura de tudo. Este Bairro Alto é como uma aldeia tradicionalista durante o dia, infame à noite. Um contraste e uma mistura. Já se sabe: a roupa estendida e os bares da moda, as lojas de discos que ficam abertas durante toda a noite e as tascas sujas dos subúrbios com quatro alcoólicos de vinho barato, os pubs da moda e os camelos nas esquinas, a loja da estilista mais chique e as impressões dos jornais ou as padarias, as casas de fado e os salões de cabeleireiro mais modernos, as associações culturais e os restaurantes asiáticos, tudo espalhado por um labirinto de ruas, becos, ruelas e travessas idênticas umas às outras. E as pessoas sobem as calçadas estreitas ou para onde podem quando o camião do lixo passa. E bebe-se e canta-se nas ruas. E há betinhos, turistas, alternativos, fura-vidas, ralé e gente “normal”, a partir dos dezoito anos de idade e mais. Bairro Alto, para todos os públicos, uma república independente, com carácter próprio e vocação de destino de sol e praia, mas também de pátio de quintal e de bairro trabalhador, situado numa das sete colinas, mas setenta bairros num.

…E vagueamos, protegidos pelo nosso fascínio e pela nossa própria estranheza. Passámos pelos bares sem nome como os minutos passam num relógio de areia, como bares de rua numa cidade qualquer, sob um outro céu, estranha, alheia a este palheiro com centenas de agulhas perdidas nele, como almas perdidas a vaguear pelos bairros dentro de cidades e cidades no coração do bairro, mil cidades num bairro e um universo dentro de cada casa; e cada pessoa, um mundo de ossos, músculos, carne, sangue e cérebro…

 Caminhávamos ao mesmo tempo e um pouco ao acaso pelas ruelas e cantos, com descidas e subidas, agora pela rua da Atalaia, agora pela do Norte ou pela rua da Rosa, falando baixinho, mas também escutando palavras ou trechos de conversa em Português, Inglês, Alemão e, de vez em quando, mais ruidosas e mais vulgares, em Espanhol e Italiano. Muito Erasmus à solta e muitos profissionais de enfermagem também pelo Bairro Alto…

  —…Sim, para observar e ficar fascinado — digo —. E, de facto, Lisboa não é diferente. Procurando apartamentos, saí da cidade histórica e creio que já posso falar com algum fundamento. Mas é uma cidade com todas as leis. E fico feliz por ter comprovado o quão pobre que é ou de ter visto a sua cara vulgar ou aborrecida. Tê-la visto recém erguida, com esses cabelos, com esses olhos inchados e esse cheiro a óxido…  Mas amo-a e amo o Tejo, como o poeta, porque existe uma grande cidade nas suas margens. Por isso, sim, observo e fico fascinado, mas também gostaria de participar na festa, desfrutar do parque de diversões imenso que é a cidade, qualquer grande cidade. E agora estou em Lisboa, há uma semana, mas vim para ficar. Para apreciá-la e viver para contar. Viver do conto. A literatura como um barco salva-vidas. E ter a oportunidade de proclamar aos quatro ventos o seu triunfo como recompensa.

Disse, após longo silêncio, quando o Oliverio já não esperava resposta nem sabia como romper as tréguas. As minhas palavras não o tinham alcançado, pensei, está tão perdido no seu mundo que desligou completamente.

Então, como via que a noite se lançava sobre mim com o sopor da minha própria melancolia, parámos num bar discreto, de baixa qualidade, que tinha um bilhar americano onde quatro adolescentes de cor (pretos, especificamente) jogavam uma partida e um ventilador de tecto e parámos para tomar uma bebida, um dessos combinados num pseudo copo de vidro e pouco carregadas que servem em Lisboa. Outra questão que se coloca. Mas, pelo menos, custam 300 escudos. Então, caíram duas. E tinha algo de autêntico ver os dois rapazes jogarem bilhar, com esse sotaque de colónia africana, o cheiro a haxixe, duas velhas glórias a beber no balcão e o empregado “de toda a vida”, sóbrio e preciso nos seus movimentos, de poucas palavras, mas contundente, génio e figura. Só faltava a música do acordeão.

Quando abandonámos esse local, procurámos conscientemente um bar um pouco mais “moderno”, com jovens barulhentos e música actual, um bar de copas, como se diz, com mulheres, se possível. Mulheres para observar. Para olhar para elas como o Oliverio começou a fazer sob a estranheza de um céu que não é o seu, para depois poder escrever sobre isso, embora olhar tantas vezes não passe do simples “ver passar”, nessa frustração diária de que é mero espectador, “antropólogo de balcão”, de balcões de bar como “depósitos de amor”, como diria a canção. O Tony tinha-me dito que o El último de la fila é um dos seus grupos Espanhóis favoritos e, ao dizer-mo, pôs-se a cantar… já não subo a colina que me leva a tua casa/ o meu cão já não dorme junto à tua porta… e eu tinha-lhe falado de grupos como Nacha Pop, Radio Futura, Gabinete Caligari, La Unión,… e tínhamos sorrido, sorrido e cantarolado.

E passámos, sim, por lugares emblemáticos do Bairro Alto, como o Keops, o Targus, o Cafédiario, o Captain Kirk, a discoteca Frágil,… e, na maior parte das vezes, debruçávamo-nos para dar uma vista de olhos, até que, não se sabe muito bem porquê, inclinávamo-nos para um e para outro, por ser espaçoso ou não estar cheio de gente, pela música, pelo “ambiente”, como se costuma dizer, não sei, para provar, uma bebida rápida ou duas ou, se estivermos com vontade, as que forem. 

Até os álcoois e fenóis começarem a ter pleno efeito e então a noite dispara, as horas já não passam como segundos e minutos, 60 de cada, mas são peixes que se escapam das mãos e mesmo assim insistes em tentar apanhá-los. E até cair de bruços e acabar molhado e um pouco escaldado.

Mas naquela noite, o Oliverio e eu tínhamos a aceleração certa e como somos mais de reflexão etílica e pode dizer-se que no nosso caso junta-se a fome com a vontade de comer, o inevitável aconteceu: a literatura agarrou a noite e a aleivosia. E então foi já quando a ficção e a realidade se confundiram estrepitosamente.

O empregado de um local famoso pelos seus cocktails imaginativos prepara, no balcão, a dois metros de nós, uma das suas misturas mais bem sucedidas, e para isso utiliza e combina cerca de 7 garrafas, além de outros ingredientes, como sal, água, limão ou hortelã.

…No final, aconteceu o que tinha de acontecer, o Oliverio prescindiu da minha companhia e acabou por abordar um pequeno grupo de espanholas que bebia cocktails no balcão. Fez-se passar por Lisboeta e apresentou-me como um professor universitário Espanhol residente na Universidade Politécnica (?). A minha especialidade, Mecânica Quântica. Elas eram enfermeiras, duas de Jaén, uma de Valladolid e outra de Albacete. Duas foram-se embora e as outras duas deram-nos mais atenção. O Oliverio e eu olhámos um para o outro: sim, havia uma que era boa… Mas, era uma daquelas que não nos tinha ligado, a de Valladolid.

—Pois, tenho família em Valladolid —disse-lhe, na tentativa de abordá-la; mas a sua cara era mais do género “e que tenho com isso”, ou, “sim e agora vais dizer que está muito frio, ou que vais contar uma piada com Zorrilla, ou que o Felipe González diz que o rio Pisuerga passa por Valladolid”.

No entanto, as duas que nos ligaram eram simpáticas e agradáveis, embora uma fosse parecida com o Boris Yeltsin e a outra muito tola, coitada, como um macarrão colado a uma caçarola há alguns dias. Mas, convidara-as para dançar nas festas de Santo António.

Uma era a favor de Lisboa e a outra contra e falavam dela como se de uma pessoa se tratasse. Diziam “é suja” ou “está muito apagada”, ou “é um pouco insonsa”, como se falassem de uma companheira de apartamento.

Alguém diz com lentidão:

“Lisboa, sabes…”

Eu sei. É uma rapariga

descalça e leve,…

Trabalhavam no hospital da Amadora, e não quis perguntar, mas podia imaginar a Lisboa que é vivida e sentida na sala de espera de um grande hospital público numa segunda-feira às oito da manhã. Assim, como se não entendesse o seu desdém, o seu cansaço, a falta de verso. Nenhuma fazia ideia do Português, nem qualquer interesse em aprendê-lo. “Sim estas pessoas dominam, entendem muito bem o Espanhol”, argumentavam.

—Ah, sim? —objectei— e se uma noite nas urgências chegar uma paciente e dizer-vos “acho que vou morrer porque estive a chafurdar na meiguice” —e inventei uma expressão sem sentido, a verdade—, o que fariam?… disse-lhes com um sotaque do norte, de aldeia transmontana…

Discutimos isso, mas o facto é que depois de atravessar quatro temas e partilhar alguns comentários engraçados, as duas amigas dissidentes, aquelas que renegavam Espanhóis em Lisboa ou homens que abordavam raparigas nos bares, ou as que tinham namorado nas suas cidades e portanto medo de falar com outros rapazes por aperceberem-se de que há vida no exílio ou mesmo se se apaixonavam, disseram: “olhem, vamos?” e lá foram as quatro, como Cinderelas que desaparecem com as doze badaladas.

Então, muito prazer.

* * *

…É quinta-feira, o melhor dia para sair à noite, não só em Lisboa, mas em quase todas as grandes cidades. Há pessoas porreiras e com a verdadeira intenção de aproveitar a noite, não de sair porque “é o que está a dar”, nem ansiosas por recuperar no fim-de-semana o que aparentemente perdem durante a semana. Pode entrar-se nos bares, a música tem o volume adequado, consegue-se falar, nas ruas há barulho e trânsito, mas não libertinagem, vulgaridade ou solidão pública, e ouvem-se até oito línguas diferentes. Passámos pelo Portas Largas, onde há Australianos, Franceses, Ingleses, Holandeses, Alemães, Brasileiros, Italianos, Espanhóis e, obviamente, Portugueses, e apesar da sua música cool e da sua clientela in, não deixa de ter aquele aspecto de bar de bairro aberto à vida da rua, como se todo ele fosse uma grande vitrina. E acho que nisso reside o seu sucesso: está-se melhor no exterior, nesse cruzamento de ruas como uma praça pública, do que no interior. E o clima de Lisboa, esse clima atlântico com influência mediterrânica, com Invernos temperados e Verões agradáveis, convida à exposição e à vida ao ar livre.

Extractos do romance Tal vez se llame Lisboa…