Rossio e arredores

…Desci, com os óculos de turista postos e a companhia preciosa do guia “Lisboa, uma cidade inesquecível”, de Juan Antonio Gurriarán, na esquina da Glória com a Liberdade, disposto passear o meu olhar limpo pela cidade em redor e pôr à prova os conhecimentos adquiridos nos meses anteriores, sentado no banco ou durante o aquecimento na faixa, disposto fazer-me ao terreno de jogo enquanto o Outono surgisse.

Na realidade, como conta Gurriarán, a Avenida da Liberdade é o prolongamento de uma grande artéria que nasce ao pé do Tejo, na Praça do Comércio, continua no Rossio e une-se aos Restauradores pela Praça João da Câmara, como uma Castelhana de ancas operadas. Desci a calçada como tomando a vereda de tijolos amarelos até dar com a fachada neo-manuelina da popular Estação do Rossio, a que se disse ser uma espécie de “catedral ferroviária” e embora tenha perdido grande parte da sua funcionalidade a favor da Estação de Santa Apolónia, primeiro, e da Gare do Oriente, depois, o certo é que as pessoas entram e saem e vêm e vão por ela e a agitação é contínua. Dela partem os “comboios suburbanos” que se dirigem para o território mágico de Sintra. A Sintra de Lord Byron, nenhuma outra.

Entrei uma vez mais, como já fizera no dia anterior, como já fizera há seis e há dez anos, na praça do Rossio, mas desta vez para lhe dedicar um olhar mais calmo. Antes do terramoto de 1755, quando a maré subia, as águas do Tejo chegavam a esta praça e às proximidades da dos Restauradores, como se se tratasse de uma reprodução ou paródia da praça de San Marcos. O arquitecto De Maia teve a ideia previdente de levantar o leito da enseada com os escombros do terramoto; hoje todos os especialistas reconhecem a genialidade do engenheiro militar que, em 1755, quando tinha quase oitenta anos, conseguiu evitar a inundação da área e frustrar assim a tentação de enveneziar a cidade com gôndolas.

Mas do Rossio, deste Rossio condescendente de Outono com odor a flores e a castanhas assadas e a brisa do mar no rosto e de onde entre pombas irrompe alguma gaivota ameaçadora que nos anuncia a iminência do mar imenso às portas da cidade, mas dos trezentos e sessenta e cinco dias do Rossio, o que interessa é a sua vidinha, com estabelecimentos que as guias mais oficiosas relatam como o Nicola, A Tendinha e a Chapelaria Azevedo Rua, a pastelaria Suíça, a livraria do Diário de Notícias ou a Loja das Meias, estabelecimentos de toda a vida que eu, nesta manhã de sábado, não consigo ver, cego talvez pelo excesso de luz. À direita do Teatro Nacional fica o Largo de São Domingos, onde me recordo que existia, e continuará a existir (porque vejo que quase tudo continua no seu sítio e que as mudanças ocorridas, subtis, como a limpeza de fachadas e monumentos, ou significativas, como o Metro, são para melhor), a pensão onde fiquei hospedado na minha primeira viagem a Lisboa, com dezanove anos, Largo que na realidade é uma continuidade do Rossio e tem, como este, um ambiente vital e multicolor. É ponto de encontro dos africanos das ex-colónias portuguesas que aqui se reúnem durante o dia para conversar, acordar algum trabalho ou juntar-se num bar próximo para beber uma ginjinha, a típica aguardente de cereja. Ou recordar-nos que Lisboa também é africana. Convivem com toda a naturalidade com turistas e pombos, com táxis de cor creme e alcoólicos anónimos, e depois de vaguear entre eles deduz-se que também caíram no vício dos telemóveis…. Mas, com tudo isto: o que aconteceu aos táxis pretos de tejadilho verde, tão característicos da cidade?… E aos filhos dos donos da pensão, que contavam então com sete e onze anos?…

Entrei na contígua Praça da Figueira, para verificar se por ela o tempo também tinha passado como um cavalo galopante. Deve o seu nome a um antigo mercado de rua que houve no local e que durante muitos anos foi o autêntico mercado central da cidade. O espaço, projectado para alojar habitação e comércio, conserva o mesmo quadrilátero harmónico e elegante, como um tabuleiro de xadrez em relevo, traçado pelos arquitectos de Pombal, e foi construído depois da limpeza e preparação do terreno ocupado pelo hospital de Todos os Santos e outros edifícios destruídos pelo terramoto. Caminhei, pois, sobre séculos de história e de vicissitudes e sinto-me deslizar em cada pedra da calçada com o suor derramado pelo esforço titânico feito por quem a colocou, tropeçar nos ossos dos milhares de homens e mulheres aqui enterrados sob o tumulto da história. Está cercado por casas de quatro e cinco andares, com águas-furtadas, presidido pela estátua equestre de D. João I, quase sempre coberta de pombos. Com efeito, está coberta de pombos nesta manhã de sábado. Há lojas e estabelecimentos curiosos em baixo, entre os quais qualquer guia de utilização indicaria a Pastelaria A Tentação, com uma vasta oferta de doces caseiros muito típicos de Lisboa, como um dos mais “emblemáticos”. Mas, não a vejo, nem me encontro com ela, nem a procuro, provavelmente devido aos efeitos da embriaguez que se começam a manifestar no meu espírito, embriaguez como palavras escritas na água, de sensações que escorregam como peixe ou gotas de mercúrio das mãos, de biorritmos vitais como passagens de uma cidade secreta, uma cidade criada como uma colagem onde cada peça encaixa formando um poema de versos desordenados como cabelos ao vento, álcoois de uma embriaguez que encontra no fundo de si mesma o seu ponto de equilíbrio, como um estado de espírito, esse que se chama precisamente Lisboa, que é uma maneira muito particular de ser e estar no mundo, como um “ser ou não ser” à Portuguesa.