Pontes

…“Início da concessão, Lusoponte”. El Ponte, a ponte, porque em Português “ponte” é feminino, Vasco da Gama tem nada menos que 17,2 quilómetros de longitude, 10 dos quais passam mesmo por cima do estuário do Tejo. Era a maior da Europa no momento, e na sua construção, que iniciou em 1995, e que teve de cuidar escrupulosamente da preservação do meio ambiente, foram realojadas 300 famílias. À medida que avanço nela e vou comprovando cada quilómetro que passa, reflicto sobre o tempo recorde em que foi construída, três anos, um por cada cinco quilómetros e meio mais ou menos, e vejo os 3.300 trabalhadores com que chegou  contar, e inclusivamento vou vendo, a cada cem metros, um a cair à água devido a insolação, outro a ser esmagado por um pilar e outro atropelado por um camião, além do que morreu com uma paragem cardíaca… assim até aos dezoito que faleceram. Sem dúvida, é uma das maiores obras de engenharia civil do século XX. Que máximo.

Até à sua inauguração, a ligação entre as duas margens era estabelecida através da Ponte 25 de Abril e do serviço de ferrys, e a ligação com a zona norte do país, além de pela ponte 25 de Abril, pela ponte de Vila Franca de Xira. O colapso e a fractura norte-sul eram monumentais. Mas, por sua vez, a ponte 25 de Abril, com três quilómetros de longitude, dois dos quais por cima da água, todavia a segunda maior ponte suspensa do mundo, foi inaugurada no ano de 1966. Pois, até então, as zonas norte e sul do país, divididas pelo Tejo, viviam cada uma com o seu livre arbítrio. 

Não era a melhor maneira de entrar em Lisboa, num dia cerrado de chuva cinzenta, mas aí estava, Lisboa…

Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar…

Nos dias claros e limpos a partir da metade do trajecto pela Vasco da Gama pode avistar-se a outra ponte, a 25 de Abril. Mas, naquele dia não. Naquele dia, o da República, 5 de Outubro de 2001, chovia no molhado e as árvores não deixavam ver o bosque. 5 de Outubro, o dia em que cheguei a Lisboa para ficar. E vinha do sul, como Sophia de Mello Breyner Andresen…

Digo:

“Lisboa”

Quando atravesso –vinda do Sul- o rio

E a cidade a que chego abre-se como

Se do seu nome nascesse…

A ponte 25 de Abril que, certamente, ao fim da semana, cheguei à conclusão que ainda gostava mais dela, talvez porque a imaginava como seria desde os dez anos, é também conhecida por ser a ponte de construção mais rápida; de facto, detém um recorde mundial, dificilmente superado: foi construída numa noite. E estendeu-se, chamando-se ponte “Salazar”, e na tarde do dia seguinte, 25 de Abril de 1974 (dia da Revolução, para ser mais exacto), passou a chamar-se “25 de Abril”. É essa a história.