Expo

— Entraste no Centro Comercial? — perguntou-me.

— Não, a verdade é que não. Não sou muito de Centros Comerciais.

— Este está bem. Chama-se Vasco da Gama. Vais gostar. Tem a forma de onda e está cheio de pormenores marinhos.

“De onda?”, questionei-me, “Ããã, de onda”, mas não disse nada ao Tony, o homem, pois parecia ter a ilusão de me mostrar. Demos uma volta pelas galerias de lojas antes de subirmos à zona da restauração, que já ia sendo hora. Debruçámo-nos sobre a Expo, ou a vista que se tem da zona a partir do terraço do Centro: à esquerda, o Pavilhão Atlântico, o Parque das Nações e a Torre Vasco da Gama, e mais ao fundo, a maravilha de ponte; à direita, a Doca dos Olivais e o Oceanário. Amplo e luminoso, organizado. Não estava mal, para um núcleo tão artificial. Assim disse ao Tony.

— Esta zona portuária estava antes de noventa e oito feita uma vergonha, totalmente degradada, arruinada — explicou-me —. A ponte também fez milagres.

— Vamos lá ver se depois de comer damos um passeio por cá — respondi.

Sentámo-nos comer, num sítio qualquer. Muita gente no Centro, ou pelo menos assim parecia. E é que todo o alvoroço, a multidão e a vitalidade que não encontras nas ruas, nos bairros, nos locais públicos ao ar livre, encontras nos Centros Comerciais. Uma das contradições da alma Portuguesa: adoram os Shoppings.

…Visitámos a Expo, o que é bom, como ficou bonita aquela zona da cidade, um sítio de lazer para as famílias passearem ao domingo, um ponto destacar no mapa turístico da cidade, com o Oceanário como prato principal. Os Jerónimos, o Chiado ou Alfama também são “pontos de interesse turístico”. E tendo a pensar que se os habitantes ou residentes de Canillejas, Carabanchel Alto ou Valdebernardo, sem ir mais além, lhes dessem para parar o tempo no ano de 2001 e continuar a viver durante anos e anos da mesma maneira que agora, dentro de 30, 50 ou 100 anos os seus bairros, aqueles bairros, serão também “pontos de interesse turístico” de Madrid, e os turistas entrarão neles de câmara em punho como o fazem nos museus, parques de diversões ou ambientes naturais. A nossa vida de agora é a pré-história da centésima pós-história. E reproduzimos os mesmos parâmetros do ciclo a cada série de anos, tal como sucedem as estações. Os nossos filhos rir-se-ão porque ouvimos os Hombres G ou fizemos noitadas quando éramos jovens, como nós corámos com as recordações das festas dos nossos pais ou as suas coibições por causa da religião, tão dóceis usando aqueles coletes de força que se destinam fazer cumprir os seus mandamentos. Afinal de contas, a chuva é igual em toda a parte e em todas as épocas. Todos nós nos preparamos como conscienciosos actores de método para a mesma representação da vida. E a Expo é isto e estamos em Lisboa.

—Algumas grandes empresas implantaram as suas sedes nos edifícios vizinhos, e diz-se que agora é a zona mais cara da cidade —responde-me o Tony aqui e agora.

— Mais cara que os Jerónimos? Mais cara que o mais caro do Rato ou da Liberdade?… Pois bem, mas para mim não existe cor — disse ao Tony, quando me contou isto. 

Voltamos ao Centro Comercial e celebramos cada rosto e cada corpo de mulher felizes com que nos cruzamos, atribuindo-lhes uma pontuação de um a dez num hipotético índice de beleza. Passa gente, muita gente, sobretudo público adolescente, colectivo em que brancos, negros e mestiços convivem com exemplar naturalidade, como assumo com naturalidade a minha primeira amizade com alguém de cor. Gente também de Lisboa, mas isto também faz parte da cidade. Os sacos, as escapadelas, as luzes de neón, a música ambiente, as ofertas, os manequins, as latas do lixo, as casas de banho e os acessos ao estacionamento… É um Centro Comercial em toda a ordem. Aqui e na Conchinchina. No carrinho de compras coloca-se uma moeda para libertá-lo, e nas lojas de brinquedos há heróis de plástico como gigantes de pé de barro, carros em miniatura, pequenas cozinhas e Barbies de toda a laia. Mas também há gente que come uma sopa sentada num tamborete no balcão da moda; cerveja não, nem café: sopa.

Às cinco menos um quarto, rumámos em direcção à estação. O seu “Auto-res” parte às cinco. Despedimo-nos, combinamos para nos voltarmos encontrar a meio da próxima semana.

— E faremos uma saída nocturna — disse-me o Tony, antes de subir para o autocarro —, pelo Bairro Alto e por aí.

Tá bom!

Regresso ao centro de metro, lendo o folheto que levava comigo sobre o Oceanário…

O Oceanário de Lisboa é um museu de biologia marinha situado no Parque das Nações em Lisboa, Portugal, construído no âmbito da Expo 98.

Este pavilhão, obra do arquitecto norte-americano Peter Chermayeff, lembra um porta-aviões e está instalado num porto rodeado de água. É o segundo maior oceanário do mundo e contém uma impressionante colecção de espécies —aves, mamíferos, peixes e outros habitantes marinhos.

Consiste em quatro áreas distintas que representam os habitats dos oceanos Atlântico, Pacífico, Índico e Antártico e as suas fauna e flora.

A atracção principal, para a maioria dos visitantes, é o grande tanque central, onde coexistem várias espécies de peixes como tubarões, barracudas, raias, atuns e pequenos peixes tropicais. Embora pretenda ser uma representação do oceano aberto foi criticado por vários cientistas devido ao facto de juntar espécies pouco relacionadas no mesmo espaço.