Elevador da Glória

…Uma Portuguesa com uns quarenta anos, com aspecto de cinquenta e de acabar de ouvir uma mensagem de Salazar na rádio ou colocar um cravo no cano de uma arma, anotou os dados da minha entrada, com muita correcção e poucas palavras, o que impediu que se notasse o meu desconcerto e deu-me as chaves do quarto 10. Tinha casa de banho e uma janela com vista para a costa, mas era um quarto que transmitia a mesma sensação de andar com uma pedrinha no sapato. A paragem do elevador da Glória ficava a uns dez metros pela rua abaixo. Mais tarde, fiquei a saber que essa é uma das imagens mais fotografadas de Lisboa, desde a calçada dos Restauradores, o elevador amarelo e a subida íngreme e num canto, o cartaz azul de “Iris” e a janela do meu quarto. Mas chovia. E hoje os turistas não iam para o safari fotográfico.

…Mas, voltava a sentir-me forte porque a luz de um novo dia fez com que as brumas da noite se esfumassem e as dúvidas que na vigília eram fantasmas horríveis e abismos insoldáveis não passavam de obsessões na ressaca do dia seguinte. Às nove e meia abria a janela na manhã de sábado, 6 de Outubro de 2001, e o elevador da Glória, que liga os Restauradores ao Bairro Alto desde 1885, já há um bom bocado que me estava a dar uns chilreantes “bons dias”. Mas, ao abrir a janela, ver o elevador na sua subida e, abaixo, alguns turistas tirando-lhe fotografias, ao constatar o dia tão azul que cobria tudo, presidido por um sol radiante, esse “bom dia” soube-me a isso, a glória.