Estrela

…Desde o Largo do Rato tinha, mais uma vez em pleno uso da minha liberdade condicional, as opções de entrar na rua das Amoreiras até aos confins daquele bairro e do Aqueduto das Águas Livres, de descer pela Alexandre Herculano até a um Rato mais elegante e aristocrático, ou de subir pela avenida Álvares Cabral rumo à Estrela. 

Decido subir a Álvares Cabral, suponho que atraído pela influência do zimbório fabuloso com cúpula octogonal da Basílica da Estrela, a obra arquitectónica mais importante do século XVIII em Lisboa, e a boa lembrança da última tarde passada no Jardim da Estrela, há seis anos atrás, juntamente com o Fernando e o Julio, a almoçar quatro pães doces e duas latas de atum, de quando éramos viajantes sovinas, mas felizes.

Parece que o antigo Convento da Nossa Senhora da Estrela ou Esterlina dá nome a uma área que compreende a Basílica da Estrela, o Hospital Militar e o Jardim da Estrela. A Basílica foi construída, concretamente, entre os anos de 1779 e 1789 com o nome de Basílica do Coração de Jesus, e foi a primeira no mundo a ser erguida em honra do Sagrado Coração. Como tudo, tem a sua pequena grande história. As orações e as súplicas contínuas a Deus de um filho varão que pudesse ocupar o trono de Portugal foram as principais responsáveis pela sua construção, pois Dona Maria I, quando Maria Francisca Isabel era princesa e herdeira do trono Português, prometeu construir uma igreja em honra do Sagrado Coração de Jesus se engravidasse de um filho varão. Assim aconteceu, e foi construída, mas depois da morte do Marquês de Pombal, embora o edifício tenha um inegável estilo pombalino, e a Basílica, em particular, tenha sido inspirada no palácio de Mafra. Pena que o jovem varão, cujo nascimento deu origem a esta construção, não chegasse a reinar em Portugal, ao morrer com varíola aos vinte e seis anos. O destino e os seus golpes duros. Talvez já tivéssemos lido esta história no guia em utilização com manchas de azeite de conserva sentados na Estrela, há seis anos atrás, mas não me lembrava dela. Só me lembrava da felicidade do momento, com Julio a explicar com veemência que dois mais dois são quatro, mas não sanduíche de lentilhas, ou accionando o mecanismo que activa a máquina de produção de anedotas para entretermos o Nando e a mim com uma mais do que passar para a história.

A Basílica tem duas torres gémeas e uma cúpula, visível a partir de qualquer miradouro da Lisboa ocidental, e o interior do recinto é constituído por uma nave com seis capelas laterais em mármore cinzento e rosa. Espreito e impressiona… não sei, a luz natural, a dimensão, o piso de mármore branco policromado, a limpeza, as esculturas, os quatro paroquianos que já esperam pela missa seguinte, sentados como cadáveres embalsamados… Espreito uns metros, mas não a visito, e o olhar que me é dedicado por uma anciã do último assento dá-me arrepios. O mármore deslumbra, como a beleza de uma mulher islandesa, grande e branca, mas quero deixar o deleite para outro dia, para outros dias, que haverá, porque vim para ficar. Este fim-de-semana tratava-se de abarcar.

À saída desta igreja, como sucede nas do Chiado, nas calçadas do Rossio e nas ruas mais amplas e concorridas da Baixa, havia, estrategicamente posicionados, aleijados, tolhidos, mutilados, amputados, cerceados, velhos e não tanto, brancos e negros, mais homens que mulheres, à volta dos cinquenta anos, todos igualmente dignos nesta manhã de domingo, esperando o horário de pico da missa da uma, pedindo uma esmola por caridade; e esta imagem retrai inevitavelmente o Portugal de toda a vida, mas sobretudo o dos anos setenta. Lembro-me da primeira vez que os meus pais nos levaram a passar o dia em Elvas, a passear no centro, a contemplar a arquitectura e o estilo Português e sentirmo-nos “estrangeiros” a apenas uma hora e um quarto de Cáceres, comer no Cristo e fazer umas compras no Paga Pouco, ano de oitenta e um ou oitenta e dois, e ao estacionar os meninos, alguns deles da minha idade na altura, embora não me recorde se algum deles estava descalço, seguirem-nos e não pararem até arrancar-nos umas moedas, imagem e retrato que ainda hoje se repete em setenta e cinco por cento do planeta que alguém visitar, nos países da África, Ásia, Ibero-américa.

O Jardim da Estrela é um dos mais bonitos e calmos da cidade. No seu interior, há lagos, esculturas que emergem de lagoas, um quiosque de música, sebes, árvores de diferentes espécies, fontes, estátuas, e um bom número de flores e plantas trazidas das viagens que os comerciantes e navegantes fizeram ao Brasil, à Índia e a África. Espreitei pela rua Calçada da Estrela e saí na de São Jorge. Mas, não me sentei em nenhum dos seus bancos, a ver as pessoas a passarem.