Chiado

…Passados meses, soube que há um bar no Chiado, com ar moderno, muito beto e “na moda” de um tempo a esta parte (ou seja, com gente porreira), que todos conhecem como “Por amor a Chiado”, embora o seu nome verdadeiro, e o que de facto consta na sua entrada, seja “Amo-te Chiado”, como uma pintura de adolescente onde se declara um amor ou simulacro do mesmo por uma colega de turma: “Amo-te Nuria”, ou Yolanda, ou Ruth, ou Carmen… algo assim como o coração atravessado pela flecha e dois nomes de ambos os lados. Amo-te Chiado.

E eu, a partir daquela tarde de sábado, e por amor ao Chiado, fiz desta zona da cidade a minha preferida para os passeios à deriva ou a necessidade de apressar as horas mortas ou enquadrar círculos. Já tinha conhecimento disto pelas visitas anteriores, mas aquele passeio depois de almoço no sábado, 6 de Outubro de 2001, serviu apenas para confirmar isso: amo o Chiado. Adoro-o. Afinal de contas, sou um pequeno burguês.

Cardoso Pires continua a dizer, no seu livro “Lisboa, Diário de Bordo”, que “É possível definir Lisboa como um símbolo. Como a Praga de Kafka, como a Dublin de Joyce ou a Buenos Aires de Borges. Sim, é possível. Mas, mais do que as cidades, é sempre um bairro ou um lugar que caracterizam essa definição e a fidelidade tantas vezes inconsciente que lhes dedicamos. A sua geografia cultural, o seu resplendor diurno, a paz provinciana das suas ruas à noite, tanta coisa, tanta coisa.”

E são, novamente, estabelecimentos comerciais, edifícios, livrarias, cafés, igrejas, museus, mais edifícios, eléctricos, estátuas, antiquários, teatros, azulejos, as ruas paralelas, as subidas e as descidas, os cantos, outra vez os telhados… e são, sobretudo, as pessoas que lhes dão vida, a gente do bairro, passeantes e residentes que sabem estar e desenvolver-se, porque são conhecidos no Chiado, como o sangue que corre nas veias e artérias, a seiva da árvore que cresce firme. Mas, naquela tarde de sábado, veio-me à memória o primeiro Chiado, aquele que, entre andaimes, na realidade não pude conhecer, naquela primeira visita à cidade com os meus dezanove anos. E é que se encontrava em plena reconstrução, após o terrível incêndio de Agosto de 1988: 18 edifícios afectados, 7 ruas, 1680 bombeiros, 300 veículos, 18 horas até ficar sufocado, 2 mortos, 60 bombeiros feridos…

E enquanto caminhava pelas suas ruas animadas e saboreava os seus nomes nas esquinas (Carmo, Garret, Serpa Pinto, Largo do Chiado, Praça Luís de Camões, Nova da Trindade, Largo do Carmo…) como quem reserva o ponto de sal num guisado, lembro-me de ter visto a notícia do incêndio no telejornal, lembro-me dos andaimes e do bairro lotado pouco depois de fechado ao trânsito; lembro-me, na segunda viagem, com o Fernando e o Julio, do bairro já reciclado; mas não me lembrava de modo algum, e sim faço-o agora, de ter apreciado a qualidade desta restauração após o incêndio. Agora encontrava-me em condições de valorizar, e assim fiz. 

Valorizar o trabalho do arquitecto Álvaro Siza Vieira para devolver, sem falsificações, o esplendor do Chiado mais autêntico. Qualquer guia que se preze dedica umas páginas àquela recuperação exemplar. Noutras cidades do mundo teriam feito algo completamente novo, moderno, vanguardista, impressionante, até mesmo revolucionário. Em Lisboa, não; e foi assim que se reproduziram os edifícios queimados e destruídos, principalmente os armazéns Grandela e Chiado, até ao mais ínfimo pormenor. E ficaram idênticos, mas com materiais actualizados, maior coesão arquitectónica, e um lifting. Para que aquele bairro boémio e decadente, no coração cultural de Lisboa, o seu pensamento, continue a brilhar da coerência e fidelidade ao que sempre foi: pura Lisboa.

Agora, por amor ao Chiado (há um verso de um poema de Fernanda de Castro dedicado ao Chiado que diz que “anda no ar a vibração dum beijo”) li com interesse e pesquisei nos guias tudo o que é explicado sobre aquela reconstrução liderada por Álvaro Siza. Mas, através daquela reconstrução, construo por sua vez a história do bairro, dos séculos e das pessoas que por ele passaram e tento captar a sua essência novamente como peixe que escorrega das minhas mãos, ou pelo menos conseguir alcançar as dimensões desta. E passei em frente à livraria Aillaud e Lellos, à joalharia Eloy de Jesús, à Luvaria Ulisses, ao restaurante Tágide, à alfaiataria Modelo do Carmo, ao museu do Chiado, à livraria Bertrand, à Casa Havaneza, ao Teatro São Luís, São Carlos ou Trindade, à loja de Ana Salazar…

Passei, mas não parei, pudico, nem espreitei para o seu interior, pelo café A Brasileira, embora ao passar me chegasse como um sopro de ar, desde a sua fachada de art nouveau, aquele cheiro a café e pastelinhos que deve ser muito parecido com o cheiro do paraíso, seja este da natureza que for, e não fui um daqueles homens sós que param cinco minutos no seu devir para tomar uma bica no balcão vendo a vida passar, como uma representação teatral, no exterior, nem presto muita atenção à estátua de Pessoa, sentado no seu terraço, espaço das fotos de curiosos e turistas… Ai, pobre Pessoa, como pobre Kafka, ou como pobre Joyce, ou pobres Quixote y Sancho, se erguessem a cabeça e vissem o que as suas cidades fizeram com a sua imagem, com as suas biografias!… 

Não parei, pois, na Brasileira, nem me chamou a atenção toda essa multidão a quem pouco importa a poesia, que tira fotos sentada ao lado de Pessoa, mas sim sentei-me para ver as pessoas passarem, como o curso da corrente de um rio de montanha alta, num banco da Praça Luís de Camões. E um bom bocado. Até sentir o pulsar desta “Nápoles por Suíços habitada”, como diria Alexandre O´Neill…        

Daqui, desta Lisboa compasiva,

Nápoles por suiços habitada,

Onde a tristeza vil e apagada

Se disfarça de gente mais activa.

Em seguida, os guias de viagem remetem para o museu, para o monumento, para o edifício, para a pedra de sucessão, mas nada dizem acerca da mulher solitária que come uma sopa no canto do balcão e levanta os olhos para a vida detrás da janela, nem do músico de rua com os olhos postos mais além do que olham sem ver. Os guias não se concentram no nariz, no penteado, na roupa, no andar, na conversa de quem passa. Recordava agora, sentado na praça, e depois de observar aquela mulher, aquele músico, e passados tantos anos, e vendo passar tantos personagens e caracteres da cidade, recordava comentários e impressões emitidos sobre a cidade por gente que a visitou ou a conhecia, e viam-me, ali sentado, clarões dessas conversas, algumas das quais suponho que alimentaram a minha fome de Lisboa… Mas essas pessoas também não me falaram daquela mulher solitária, daquele músico de rua; nem me descreveram o nariz, o penteado, a roupa, o andar ou a conversa dos que passam.