Belem- Jerónimos

…A tarde de sábado, 13 de Outubro de 2001, essa sim, passá-la-ia nos Jerónimos-Belém: finalmente, a visita obrigatória, o canto inevitável, a jóia da coroa. Ir da Estrela a Belém é um passeio, mas faz-se bem. E permitiu-me conhecer as Docas, aquela zona de Alcântara recuperada para a noite e a aleivosia. Beber um copo frente ao rio e debaixo da ponte 25 de Abril, deve ser… como fazer uma noitada discreta e ecológica na parte antiga de Cáceres, ou fazê-lo, um pouco mais barulhento, na Plaza Mayor. Também supõe passear por um dos pontos estratégicos daquele Portugal navegante e explorador, pois daquelas docas partiu Vasco da Gama na sua expedição para as Índias, e a uns metros mais adiante encontram-se o Monumento aos Descobrimentos e a marina. Por sua vez, pelo Tejo, como diziam aqueles versos de Nuno Judice, ainda navega a memória das naus.

…Mas provaram que as márgenes do Tejo

são pequenas;

que há mares de onde o homen

nao sabe cómo voltar.

E antes passei pela rua da Junqueira, que ainda conserva belos palácios e mansões espectaculares, e que atravessa a fronteira invisível e serve de transição harmoniosa entre os bairros de Santo Amaro e da Ajuda.

E sim, finalmente cheguei, e aí estava, esplêndida, toda a área de Belém: Restelo, Jerónimos, Belém, que importa, porque é um todo muito completo e encantador. E tudo tão politicamente correcto, como um cartão postal, que até parece Viena. Porque em pouco mais de dois quilómetros quadrados o visitante pode encontrar, ou ir encontrando, o Museu dos Coches, o Palácio de Belém, a praça de Albuquerque, a rua Vieira Portuense, o Mosteiro dos Jerónimos, o Museu Nacional de Arqueologia, o Museu da Marinha e o Planetário, a Praça do Império, o Centro Cultural de Belém, o Monumento aos Descobrimentos, o Museu de Arte Popular, e, por último, como prato principal, o monumento mais visitado, o mais emblemático e simbólico de todo o Portugal: a torre de Belém, com os seus pórticos de arco quebrado, as abóbadas do claustro, as varandas venezianas, as guaritas de influência árabe, as influências góticas e românticas das suas arcadas, as cúpulas bizantinas, a filigrana de pedra na balaustrada, tudo fundido na arte mais característica de Portugal, a manuelina, e a sua decoração profusa e genuína. Sim, pode encontrar tudo isto na zona de Belém, que é como o que o Louvre de Paris.

Recordei fugazmente a viagem anterior, em Julho de 1995, com o Julio e o Fernando. O Nando e eu sentados na escadaria que há em frente à torre como um anfiteatro, e o Julio fazendo das suas. Fingindo ser um turista solitário e despistado, andando em direcção à torre, e que ao contemplar absorto a torre tropeça num degrau, tartamudeia alguns metros, e finalmente cai. E o Nando e eu desatando-nos a rir, sobretudo quando algum outro grupo de turistas rápido e veloz se aproxima para ajudá-lo. És tão parvo, Julio!.. és pior que o Arturo Calamidad.

E não digo que Belém não seja o máximo, ou que não me possa emocionar; o que acontece é que naquela tarde não estava nem para monumentos, nem para visitas guiadas, nem para guias eruditos. Como disse (a gritar, que se ouviu na recepção do hotel e estávamos num terceiro andar) o meu companheiro de quarto quando no primeiro dia da nossa viagem da passagem do Equador a Istambul nos acordaram às oito e meia para ir fazer uma travessia pelo el Bósforo, depois de nos termos deitado às cinco um pouco bêbedos: “Bósforo que se lixe!” Por isso, nessa tarde estava para mandar o Tejo inteiro lixar-se. E que Camões e a Confederação Hidrográfica do Tejo me perdoem.

Digamos que a minha vontade era mais favorável a concentrar-me no campesinato do que na paisagem, interessava-me mais a fauna do que a flora, mais as pessoas do que os monumentos.

Em cada rua me foges

Em cada rua te vejo

Tão doente da viagem

Teu rosto de sol e Tejo

Esta é a cidade onde moras

Como quem está de pasagem

Manuel Alegre. “Atlântico”. 1981.

Então, sim, passei e passeei diante deles, os Jerónimos, o Centro Cultural, a torre, mas sem pitada de solenidade. Sentei-me e até me deitei nos seus jardins, e li apoiado nas suas árvores, isso sim, enquanto os turistas, viajantes, visitantes, atletas, místicos, vendedores de óculos de sol ou de lenços, pais com filhos, filhos com cães, cães com bola, bola com filhos, filhos com pais, mulheres com homens, mulheres com mulheres, mulheres sozinhas, pessoas de bicicleta, em trotinetas, brancos, negros, amarelos, desbotados, excursões de reformados, vários casais, bêbedos com garrafa e gangues de jovens desfrutavam do dia. Afinal de contas, era sábado à tarde. Tudo é harmonia e sossego ao sábado à tarde em Belém, onde o Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. As tardes daqui são quase perfeitas. Retrato de família com veleiro no fundo.

Mas havia duas coisas que me estragavam um pouco a festa: não passear por ela com a minha namorada e não ter com quem festejar e ser festejado naquela noite, permanecendo no Bairro Alto e nas Docas de Santo Amaro, até ao amanhecer. Ou simplesmente ter com quem sentar-me na Casa dos Pastéis de Belém e fazer o que certamente perguntará a Amelia, a senhoria, se amanhã lhe disser que passei a tarde de sábado em Belém: “comerias um pastel na Casa dos Pastéis, certo?”…

— Não, não comi, e então?!

— Não comeste?!… Pois fica a saber que são únicos e que a tradição manda comê-los na Casa dos Pastéis, um estabelecimento tradicional decorado com azulejos que funciona desde o ano de 1841 e que desde então os tem vindo a fazer com a mesma receita…

Que se lixem também os pastéis de Belém!