Baixa

…Mas, voltando à gravidade do momento, a dúvida assaltou-me: por que rua entro na Baixa?, por qual desço até à Praça do Comércio?… Sei que acabarei por palmilhar todas, que nos meses seguintes e para todo o sempre amén caminharei nestas ruas, entre outras coisas porque consta-me que numa em particular, na Rua Dos Douradores, cabe o universo todo; mas agora hei-de abordar uma qualquer e a ansiedade de à qual dedicar este primeiro olhar sobrepõe-se a mim. O passar do eléctrico distrai-me, como flautistas de Hamelin que atraiam turistas e curiosos, e diante de mim, como para escolher o “pito pito gorgorito”, apresentam-se as três ruas principais da Baixa: rua da Prata, rua Augusta e rua do Ouro; mas opto arbitrariamente pela mais previsível: descer até ao rio pela rua Augusta, entrar no bairro mais racionalista de Lisboa, centro comercial, financeiro, cultural e turístico da cidade, em constante declínio, mas sempre em ebulição, pela sua artéria principal. O que já não se disse sobre a Rua Augusta e toda a Baixa! As suas lojas elegantes, as fachadas solenes dos bancos, a azáfama dos seus terraços, os seus cafés do século XIX ou populares, e como se não bastasse, o campensinato, essa miscelânea de uns e outros, para cima e para baixo, direita e esquerda, a Baixa Lisboeta sempre na corda bamba dos terramotos, inundações, desabamentos de terra, crises financeiras, o capitalismo incipiente

Então caminhei pela rua Augusta sem muita transcendência, desinibido, como é suposto alguém caminhar quando está assim, de visita de fim-de-semana noutra cidade, sem contudo me preocupar com o alojamento que hei-de procurar ou com o emprego que não ocupo, concentrando-me em cada rosto que passa, como peças móveis de um puzzle colectivo, rostos que a minha memória filtra e olhando para a direita e sabendo que o elevador de Santa Justa fica aí e aí o deixo, e lembro-me de uma foto que tenho com o meu amigo Fernando, tirada provavelmente pelo Julio Ceballos, desfrutando da sua vista esplêndida, vista essa que é a mesma, mas aquela de um tempo e espaço que não há-de regressar, um tempo não sulcado nuns rostos mais finos ou menos inchados agora dissecados numa foto de Verão como tantas outras. Deixando, à direita e à esquerda, edifícios mais ou menos marcados, mais ou menos significativos, de uma nobreza sóbria, de uma sobriedade nobre, sedes de bancos, uma ou outra igreja, a paragem do eléctrico 28, alguns corpos de mulher que passam e que observo de soslaio, mas só de soslaio porque tenho aí, à minha frente, o Arco da rua Augusta, como um norte, como um poderoso íman para o transeunte que deseja descer à Praça do Comércio e que contrapõe a força desse outro poderoso íman que para mim é observar e reparar nos peões, nas pessoas, que, já se sabe, por vezes não te deixam ver o bosque que é o povo. Mas, pode muito bem ter sido numa dessas ruas que os meus pais e irmãos presenciaram, lá pelo ano de 1981, uma perseguição de dois homens com pistolas na mão, segundo me contaram, todavia animados, no regresso daquela viagem de fim-de-semana…