Alfama

—O bairro está organizado em forma de labirinto de maneira intencional. Os Muçulmanos criaram este labirinto de ruas para servir-lhes de sistema de defesa, além de deixar as casas protegidas contra os rigores do Inverno ou do Verão.

Desde que cheguei a Lisboa ainda lá não tinha entrado onde a cidade é branca, provavelmente por pura pose, como quem desprezar as “visitas obrigatórias” ou as rotas típicas da cidade pelo facto, muito certo, de que “já teria tempo para fazê-lo”, porque não era um turista estrangeiro de passagem, mas que viera para ficar, a minha relação com Lisboa não era duma noite ou um amor de Verão, mas um em que estava disposto a amá-la na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, razão pela qual não me obrigava a cumprir o tema de perder-me no labirinto branco de Alfama e recriar-me na sua roupa estendida e no seu cheiro a sardinha assada, nos seus gerânios nas janelas e nos seus gatos nos telhados, nas suas colinas íngremes e nos seus becos estreitos, na música do fado e nos azulejos nas fachadas e nos eléctricos pelas ladeiras acima e, entretanto um miradouro, o calor de uma tasca, ou um daqueles lugares onde ainda hoje convivem as três culturas, num ambiente popular que fazem de Alfama “a vila de Lisboa” (povo que lava no rio, o poema de Pedro Homem de Mello cantado por Amália Rodrigues e Dulce Pontes), e, obviamente, as suas cores, os seus cheiros e os seus sabores. Só falta ouvir, a homenagem a “Alfama” dos Madredeus a deslizar pelas travessas.

Ia entretendo o Tony com algumas referências retiradas dos guias onde me tinha sentado e ele acolhia os meus comentários com alegria.

—Sabes há quanto tempo não subia a esta parte da cidade? —disse-me—… desde que vim com a Esther e duas amigas suas, uma Semana Santa, há três anos. Ao Castelo sim, vou em todos os Junhos. Lisboa celebra a sua festa grande na véspera do dia de Santo António, a 12 de Junho. São umas festas muito populares, come-se e bebe-se na rua. No Castelo, festeja-se naqueles dias a festa da cerveja e subo. Mas Alfama…

Mas Alfama continua lá, com luz própria.

Como qualificar a luz de Lisboa que no entanto

sentimos tão peculiar

se a despojarmos das casas e dos muros das praças

e dos pátios

das ruas e dos passeios de pedras desenhadas

ou do largo esplendor do Tejo?[1]   

Só vimos cartazes nas entradas, varandas ou janelas com anúncios de casas, apartamentos ou quartos para alugar, e se alguém viu, rejeitámo-lo fulminantemente. O argumento de percorrer Alfama para procurar alojamento era evidente.

—Vamos beber uma cerveja?

—Boa ideia.

E foi assim que fizemos a primeira paragem no caminho. E sai a primeira cerveja da tarde. Não sabia, mas na manhã do dia seguinte, a manhã de quarta-feira 17 de Outubro de 2001, um amanhecer chuvoso em Lisboa, com o céu cerrado de Outono e guarda-chuvas que se cruzam e calçadas escorregadias e trânsito mais desorganizado que o habitual, mas também de cidade que luz e brilha e é realçada pela água nas suas fachadas, nas suas calçadas, nas suas vias do eléctrico; naquela quarta-feira de outro Outono sem batota em que o Iraque se situou na mira dos EUA, não teria outra alternativa do que meditar sobre essa minha viagem na tarde anterior, com o Tony, e de apenas duas horas, por Alfama.


[1] António Ramos Rosa. “O mistério de Lisboa”. 1993.