Bairro Alto

…E ainda com a vertigem daquele que se debruçou sobre o abismo da solidão, entrei em contacto com outro bairro emblemático de Lisboa: o Bairro Alto. Outro canto da cidade com muita reputação e elogios excessivos, que vem a ser um resumo do que para Madrid são bairros como os de La Latina e Huertas, com algum pormenor de Chueca.

Mas o Bairro Alto, como os da Madragoa, Alfama, Mouraria, Graça ou Lapa, são para visitar de maneira desorganizada, sem programa e quase diria que quase sem mapa, ao acaso dos passos, uma vez e outra, para cima e para baixo, mesmo que se passe quatro vezes pelo mesmo canto ou haja um momento em que não se saiba onde fica o norte e o sul. Porque são bairros para perder-se neles.

E foi isso que fiz, deixar-me levar, seguindo um vizinho do bairro ou um pequeno grupo de noruegueses. Subi e desci, fui e voltei, entrei e saí, e voltei a entrar no bairro, mas saio, para assomar-me ao miradouro de Alcântara ou sentar-me no Príncipe Real, a ver os taxistas a jogarem às cartas, enquanto a tarde e a vida passam, como um desejo, como uma esperança.

[1]

Até certificar-me de que tudo estava no sítio certo, tudo, as tabernas, os pubs, as casas de fados, as antigas sedes de jornais, as mercearias, as lojas “chic”, as frutarias, as lojas de música, a roupa estendida nas varandas e a “boa tarde” com um sorriso que te dão, para que te sintas acompanhado e bem recebido, se, ao cruzares-te com algum dos seus aldeões, os saudares. Tudo, os cheiros, as cores, os sabores, tudo, estava no sítio certo. E depois de respirar de alívio (sim, é a Lisboa idealizada), fui aos Grandes Armazéns do Chiado, pois passei em frente e mal espreitei, o suficiente para descobrir que abriram uma FNAC de dois andares no interior.

Pois, era hora de recriar as livrarias do bairro.


[1] Sophia de Mello Breyner Andresen.