Ser Português

…Já tínhamos discutido sobre isto numa outra ocasião, na semana passada. E eu, já depois de dez dias, confirmava, pela imprensa, pela televisão, ao andar na rua, no Metro, nos restaurantes, com os ouvidos encostados, que ninguém fala tão mal do Português e dos Portugueses como eles próprios. “Este país está estragado”, explicava o Tony. “Repara nos serviços e tudo tão caro, com os salários mais baixos da Europa Comunitária. O Governo Português é um dinossauro. E a corrupção que existe”… E afinal, para aperfeiçoar o tema: “No entanto, Espanha…”

Ninguém fala tão mal de Portugal como os Portugueses e ninguém alimenta tanto a superioridade infundada de Espanha ou “do Espanhol” como eles próprios. Não haveria semana que passasse em Portugal sem ver ou ouvir alguma comparação ou referência na imprensa, rádio e televisão. E nós, que não ligamos ao que dizem; “ah, estavas aí, não te tinha visto”, dizemos, indiferentes, se se queixam nalgumas das muitas vezes que os pisamos. Tão longe, tão perto, porta com porta e de costas voltadas.

— Mas emigrem — objectei —, vão para Inglaterra, França, Suíça, Luxemburgo e trabalhem lá, prosperem e vivam até muito bem, e os vossos filhos, primos e netos já nascem como cidadãos daqueles países. Mas, na realidade, estão mortos por regressar a Portugal. E não há nenhum dia que passe que não se lembrem da sua terrinha, ali no canto. Porque são nostálgicos por natureza. E precisam do Atlântico, contemplando-o, mesmo que seja para sentir saudades dos mares formosos de outras terras que nunca conhecerão.

— Mas, vivem melhor ali — queixa-se o Tony.

Ou cobrem melhor as suas necessidades materiais ou primárias, notei.

— Olha este bar — continuei —. Vê as pessoas à tua volta. Estamos todos fora de jogo. Esta é como a cantina de uma estação onde os refugiados políticos aguardam a partida do seu comboio para o exílio.

O Tony sobressaltou-se, porque olhou e, de facto, viu pessoas a passarem, de um lado para o outro. E disse:

— Estamos todavia em plena guerra das colónias.

*

…Durante esse tempo discutiam futebol, comentavam algo que ocorreu na última jornada da liga, de uma liga, a Portuguesa, que me parecia, embora não o tenha dito, um pouco “pequena” e limitada, pois circunscreve-se a três equipas fortes e uns dez e tal extra, e além disso de um tempo a esta parte dessas três equipas fortes, a dama, o cavalo e o rei, Sporting, Benfica e Porto, há um que brilha com luz própria e lidera o campeonato praticamente do princípio ao fim: o Porto, com o qual Sportinguistas e Benfiquistas limitam o campeonato à rivalidade local de lutar pelo segundo lugar. O Tony era sportinguista e os seus dois amigos benfiquistas. A partir daquela tarde, também seria sportinguista, que já era dos meus na distribuição de equipas nos campeonatos de tampas de final de infância e início da adolescência. Ao contrário da maioria dos homens, que é quase a única coisa a que estão ligados na vida, eu sim podia ser infiel à minha equipa de futebol, ao ponto de que não excluía a hipótese de mudar a cada tempo determinado, mesmo a cada temporada. Já tinha sido do Sporting de Gijón, de Valência, do Deportivo, e enquanto vivia em Madrid, do Real Madrid uns meses e com mais convicção do glorioso Atlético. Agora seria do Sporting de Lisboa. Algum problema?…

Não sei o que aconteceu com um penálti que não foi e uma expulsão de um tipo devido a uma agressão que parece que não era caso para tanto.

— Então, como é que vai a competição — perguntei sobre o andamento do campeonato. Percebia a maior parte da conversa, mas com a animação suscitada pelo tema, que os levava a falar efusivamente e deixando de falar, perdia os pormenores. Contudo, fazia cara de quem percebe tudo. O Tony, para integrar-me, perguntava-me pelo campeonato Espanhol, e assim pude dizer aos poucos que fazem do mesmo um grande seguimento de Portugal. Com efeito, eram mais entendidos do que eu.

“Deveria haver uma liga ibérica, integrar as equipas Portuguesas na liga Espanhola. Ou melhor, as Espanholas na Portuguesa”, disse, e a ideia agradou, embora com as suas reservas, pois mesmo que não o demonstrassem, aperceberam-se de que para as suas equipas seria mais difícil conseguir o vice-campeonato ou qualificar para a Liga dos Campeões. Especulámos entre a espuma da cerveja sobre esta possibilidade e, finalmente, Paulo e Rui rejeitaram a ideia, enquanto Tony e eu a apoiamos. Uma questão de mentalidades. Depois filosofámos sobre até que ponto o Sporting é comparado ao que para Madrid é o Atlético e para o Benfica o Real Madrid, ou vice-versa, ou o contrário, ou “tanto monta, monta tanto”. E o Rui, face à minha intenção de tornar-me sportinguista, disse-me, com toda a segurança do mundo, que não o fizesse, porque os sportinguistas são, palavras textuais, “pessoas más”.

— Pessoas más, mesmo. A sério — insistiu, pondo-se transcendente, como se um sportinguista tivesse cometido abusos sexuais sobre ele na infância ou se estivesse a comer a sua mulher, riscando-lhe o carro ou pregando-lhe uma rasteira no trabalho. Não será caso para tanto, vim para dizer, e depois, numa piada que não entendeu, pois era um homem um pouco sesso, disse-lhe que, bom, que no Benfica há um menino que não faz mal, que vai para estátua, um tal de Eusébio…

Mais umas cervejas, ou seja, o dobro. Às seis da tarde: o que é bom acaba depressa, há que aproveitar.

*

… E então falámos de saloios e de alfacinhas. Os saloios são os camponeses dos arredores da cidade, muitos dos quais converteram-se em Lisboetas à medida que iam sendo urbanizadas aldeias como: Sete Rios, Campo Grande, Benfica, Olivais, Alvalade ou Areeiro, ou outras zonas rurais que hoje constituem a periferia incerta de Lisboa. E estes saloios incorporaram, para o seu bem, o seu carácter, os costumes e a honorabilidade da vida rural ao som e ao ritmo da cidade. Embora “saloio”, quando se chama a alguém, tenha uma conotação como a de “paleto” em Espanhol. Enquanto alfacinhas… chama-se alfacinhas a todos os Lisboetas, como os do Porto são tripeiros e os Madrilenos gatos.

— Alfacinhas, é isso que somos nós os Lisboetas, umas alfacinhas!!! — exclamava o Tony, em tradução simultânea, convincente e efusivo. E começámos os dois:

— Alfacinhas, alfacinhas… Lechuginos, lechuguinos!!!…

Apontando com o dedo, incluindo os empregados. E depressa nos pusemos a cantar a Laurindinha, como um hino privado e universal:  

Oh Laurindinha

Vem à janela..

Oh Laurindinha

Vem à janela

Ver o teu amor ai ai ai que ele vai prá guerra…

*

Às sete menos cinco, pedimos mais duas cervejas por cabeça, juntámos na mesa doze imperiais; ou seja, quatro por cabeça. O Paulo, de origem angolana, casado e com dois filhos pequenos, mais amigo do Tony e há mais tempo do que o Rui, já recebeu duas chamadas da sua mulher, que lhe pergunta onde anda e o Tony voltou a ligar para um primo seu, que saía das aulas às seis e dizia que ia passar por aqui. Eu ia libertando-me e dei azo a mais uma conversa surrealista. Está-se bem ali e os empregados participam no nosso alvoroço.

— Menos queixumes e mais acção — disse-lhes, abrindo as quatro pistas do meu circo particular, e depois de ouvir demasiadas queixas quanto ao mal que está Portugal e do muito que as empresas Espanholas o colonizam —. Acham muito fácil porque jogam com o factor surpresa. É uma questão de estratégia. Vão de avião para o norte, Galiza, Astúrias, País Basco; para o sul, de barco, por mar, desembarcando em Huelva e desde aí todo o Al Andalus; e no centro entram por terra, com os tanques, pela A5, directamente no coração de Madrid. E em quinze dias ocuparam a Espanha. E se entrarem num sábado à noite, ainda a ocupam antes, porque apanham toda a juventude em andamento e, no dia seguinte, com a ressaca, a ver quem vai defender o seu país…

Às sete e picos aparece o primo do Tony e às oito menos um quarto, face à terceira chamada da sua mulher, o Paulo tem de ir, não sem antes prometer-me que me levará uma noite a um local de angolanos para dançar e ver dançar kizomba. Como às oito vemos que já está tudo preparado para o jantar e que o restaurante começa a receber os primeiros clientes, vamos embora e continuamos com as cervejas num Snack da Praça de Chile. Antes vemos uma castanha de dois carros num cruzamento com semáforos, pelas pressas e pela chuva e o Tony e o Rui ficaram dez minutos à porta do bar, mantendo a terceira discussão acesa da tarde, desta vez por motivos estritamente profissionais, uma mudança de rendição ou algo do género.

No snack jantámos sandes e cervejas, conversámos com a paróquia local, muito do bairro, e protagonizámos não poucos momentos históricos como pepitas de ouro, dos que deixam sedimentos na memória, dos que te fazem acreditar na agua pura que flui por um leito da montanha alta, nas nuvens brancas e no céu azul intenso, para depois como de tarde incendiada, com as suas laranjas e lilases, como de uma pintura de Sorolla, como de um entardecer na Isla Canela.

— O Martim Moniz, era bom rapaz, não era? — disse ao empregado num dado momento, depois de servir-me a centésima cerveja, a propósito de nada.

— Pois — limitou-se a responder-me.

Estivéramos a falar de música e o Rui, o Tony e o seu primo, José, o Zé, sugeriam-me alguns grupos e cantores Portugueses: Xutos e Pontapés, Jorge Palma, Sérgio Godinho, Rui Veloso… e agora falávamos de séries de televisão, o que me permitiu constatar o grau de penetração da televisão Espanhola em Portugal. Desde o Verão Azul ao Médico de Família, até aos novos formatos de agora. Também lhes chega a actualidade política através dos noticiários e, obviamente, a crónica “social” através dos programas de bisbilhotice ou dos magazines nocturnos. Que horror, pensei, que imagem transmitimos ao país vizinho. E eu, não sei muito bem porquê (talvez porque o Ricardo veio sussurrar-me algo ao ouvido) pus-me em plano destroyer, embora um pouco teatral:

— O que a tv transmite é um país degradado, mesquinho, tonto, hipócrita e histérico, tudo ao mesmo tempo. Há que ver a facilidade que os Espanhóis têm em exibir a nossa ignorância e compensá-la à base de gritos, aplausos e grosserias. Já não há que ver o público ridicularizado que assiste aos programas de entretenimento, como palmas ou gritos, autênticos borregos. E supõe-se que isso valha como amostra representativa. Na Espanha, fala-se sem pensar e o pior é que se acha graça às barbaridades lançadas, o que é demais. Parece um campeonato de impudor, a ver quem se supera… Se fazem uma imagem de Espanha pela sua televisão, envergonho-me do meu Bilhete de Identidade!… — e exagerei neste último, para que ficassem na dúvida de até que ponto o meu discurso incendiário tem uma leitura dupla, a real e a fictícia, uma vez mais.

O Tony, o Rui e o Zé, ficam um pouco petrificados, sobretudo porque soltei toda esta conversa em Espanhol e não conseguem saber muito bem sobre o quê ou quem, estou a protestar.

— No entanto — continuo, já desafogado —, existe uma vida real, cautelosa, de pessoas que se movem com discrição e esforço, dia após dia. Pessoas com muito mérito, inteligentes, sensíveis, moderadas, cumpridoras, que sabem ouvir, que apreciam, que partilham, que vivem e deixam viver — agora o meu tom é pausado, olhando nos olhos dos meus interlocutores, quase diria pedagógico — Que lutam, que não se rendem. Pessoas que valem muito a pena, mas que como não fazem barulho não chamam a atenção, não saem nos “média”. Pessoas que tentam a cada dia ser pessoas melhores… Elas existem, garanto-vos… Mas, não aparecem na tv… Pronto.

“Pronto” é uma espécie de palavra-expressão conveniente, algo assim como o nosso “Bueno” ou “Vale”. Um pouco coloquial, mas muito útil. Digo pronto como quem diz “vale, ya está, ya he dicho lo que tenía que decir, a otra cosa mariposa”. Está feito.

E após alguns segundos de pasmo, retomámos a normalidade dessa anormalidade de estar ali naquele momento, padecendo das sequelas das horas felizes, dispersados e deixando-nos levar. Quarta-feira à noite, num Snack da Praça de Chile, com os seus habituais da rua Morais Soares e Almirante Reis. Território Comanche.

*

— E o senhor, que é que faz?

O Rogerio, o companheiro do Tony, a cabana no topo da azinheira, um rapaz simples com uns trinta e cinco anos, magro e moreno, de pele e traços mestiços, que não sei porquê lembra-me Magic Jonhson, pergunta-me pelo meu ofício e benefício. Eu, já um pouco cansado de dar a versão oficial e aproveitando o carácter afável que detecto no rapaz, respondo-lhe:

— Sou Guardador de patos…

O Tony ri-se e o Rogerio faz cara de póquer. “Embora o que realmente gostaria era de cantar numa orquestra, de aldeia em aldeia”, afirmo. Acabam de dar uma tampa a Magic Rogelio Johnson, um senhor gorro, quando ia fazer um chapéu e não sabe de onde veio.

— Não, homem — digo —. Sou aquilo que a cada momento me der comida. E agora, digamos, estou num processo de mudança…

— Ah — respondeu-me, para responder a tudo. Com os Portugueses há que ir de menos para mais e calcular muito. Podes embaraçá-los grandemente se recorreres à ironia na primeira rodada. Às vezes, são tão politicamente correctos, tão cerimoniosos… e com os palavrões, também há que ter cuidado. Não dizem palavrões!… Para eles, o nosso “joder” ou “coño”, que temos todo o dia na ponta da língua, são uma barbaridade.

Rogelio, como fiquei a saber, é casado e tem dois filhos, mas a sua família está na Madeira. Devido a não sei que conflito ou desencontro irreparável com o director da prisão da Madeira, foi transferido, como forma de castigo ou desterro, para Lisboa, onde já está há um ano e meio. Graças às particulares jornadas de trabalho e a mudanças de serviço com os colegas, pode ir uma vez por mês à sua terra e estar com os seus quase uma semana, portanto o desterro é parcial. É muito desportista, vai correr todos os dias e um dia competiu. Na Madeira, está a construir uma casa para a sua família com as suas próprias mãos. O que mais gosta em Lisboa é do parque florestal de Monsanto. Fala rápido, com sotaque madeirense e com dificuldades e, pelo que pude comprovar esta noite, tolera mal o álcool.

— Vi ouriços, ginetas, raposas, javalis, toupeiras, tartarugas e açores por Monsanto.

Conseguiu explicar Rogelio, após alguns minutos a tentar esclarecer-nos em portunhol com os nomes dos animais.

Pedimos outra rodada de cervejas, e entabulámos conversa com os empregados e com um tal de Tiago, um rapaz que está a um canto do balcão e que o Tony me apresenta.

— Este está sempre aqui. Sempre que venho está aqui, neste canto — disse-me o Tony, num aparte.

Tiago, é um rapaz com uns vinte e oito anos e colmatando as lacunas é um pouco como o James Dean, mas à Portuguesa; ou seja, sobrancelhas mais grossas, menos cabelo, mais rude. É uma espécie de instituição no Portas Largas, conhecido por todos os conhecidos e habitual entre os habituais. Vive perto, naquela rua que sobe, explica-me num Português muito vocalizado e apontando para a frente, para a rua das Gáveas. Trabalha no turno da tarde como vendedor de uma empresa de moda da Avenida da Liberdade e confirma que, quase todas as noites, deixa-se cair no Portas Largas, como um gato que dá uma volta nos telhados antes de deitar-se. É gay, mas não se exibe, nem se gaba, nem faz apologia, nem tem mais interesse em mim do que na conversa cordial que pode suster com qualquer um enquanto bebe o seu licor ou a sua cerveja, pois como bom Lisboeta que é, gosta de uma conversa calma, sem pressas e improvisada. Continuaria a vê-lo outras tantas noites no Portas Largas, como a de hoje, com o Tony e o Rogerio naquele canto; e, de facto, ali continuaria, saudando a cada instante uns e outros: clientes, proprietários de outros bares, vizinhos do bairro, artistas de Lisboa, gente interessante e conversando, comigo ou com qualquer outro, igualmente sobre o divino e o humano, pois falamos igualmente da guerra das colónias como da funcionalidade das gravatas no sentido do vestir. Parece-me limpo e admiro e invejo o cargo que ocupa, ganho a pulso, no Bairro Alto.

— Há que ir para Angola, meu irmão… Lá é que está o futuro.

E explica-me que Portugal já não pode esperar grande coisa da Europa e a sua aposta forte há-de ser Angola.

— Mas nós somos tão, tão pequenos…